sábado, 3 de agosto de 2019

Mais! qui a fait ma langue perfide tellement ?!

MEMÓRIA tradução minha Mémoire

MEMÓRIA
tradução minha

Mémoire

2

Eh ! l'humide carreau tend ses bouillons limpides !
L'eau meuble d'or pâle et sans fond les couches prêtes.
Les robes vertes et déteintes des fillettes
font les saules, d'où sautent les oiseaux sans brides.

Plus pure qu'un louis, jaune et chaude paupière
le souci d'eau - ta foi conjugale, o l'Epouse ! -
au midi prompt, de son terne miroir, jalouse
au ciel gris de chaleur la Sphère rose et chère.


2

Eita! Jatos límpidos contra a vidraça encharcada!
A água veste ouro, mas a cama afunda, vazia.
As prendas das mocinhas são verdes, broxadas,
e diante de tantos pássaros e brincos: AZIA!

Mais puro que um Luís, o ouro parece escarro
 irrompendo n´água --- Quanta fé conjugal, Esposa!
e quanta inveja ao meio-dia, enquanto cavo
no espelho do céu a Esfera da amada rosa. 

MEMÓRIA 1 (Rimbaud) tradução minha

MEMÓRIA
tradução minha

Mémoire
1

L'eau claire ; comme le sel des larmes d'enfance,
L'assaut au soleil des blancheurs des corps de femmes ;
la soie, en foule et de lys (pur), des oriflammes
sous les murs dont quelque pucelle eut la défense ;

l'ébat des anges ; - (Non)... le courant d'or en marche,
meut ses bras, noirs, et lourds, et frais surtout, d'herbe. Elle
sombre, avant le Ciel bleu pour ciel-de-lit, appelle
pour rideaux l'ombre de la colline et de l'arche.


1

Água clara; lacrimosidade salgada e infantil
de um sol assaltado por lindas branquelas;
as sedas dos brasões, de- lírio puro e civil
sobre os muros que defendiam as donzelas;

debate de anjos; -- Não, correnteza de preços
nos braços do mercado negro, braços de erva
que avançam do Céu azul para o céu do berço,
se reinventando na sombra, da arca, da serra.

Continua

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O RIACHO DE CASSIS (tradução minha)



La Rivière de Cassis
Arthur Rimbaud

La Rivière de Cassis roule ignorée
En des vaux étranges :
La voix de cent corbeaux l’accompagne, vraie
Et bonne voix d’anges :
Avec les grands mouvements des sapinaies
Quand plusieurs vents plongent.

Tout roule avec des mystères révoltants
De campagnes d’anciens temps ;
De donjons visités, de parcs importants :
C’est en ces bords qu’on entend
Les passions mortes des chevaliers errants :
Mais que salubre est le vent !

Que le piéton regarde à ces claires-voies :
Il ira plus courageux.
Soldats des forêts que le Seigneur envoie,
Chers corbeaux délicieux !
Faites fuir d’ici le paysan matois
Qui trinqué d’un moignon vieux.

Arthur Rimbaud, Derniers vers


O RIACHO DE CASSIS
(tradução minha)

O Riacho de Cassis rola ignorante
De suas várzeas hipnóticas:
Com vozes de cem corvos adiante
e seis anjos dos bons, parte
com o vai-e-vém grandioso dos sapos
fundindo o vento com o mormaço.

Tudo se debate, rola misteriosamente
no mistério de guerras passadas;
parques estratégicos e torres vigilantes:
compreende-se, nestas margens apressadas,
as paixões de morte do viajante:
Vento são, metafísica cacetada!

Que o andarilho mantenha o foco:
a clareza da via o encorajará.
Soldados que o Senhor envia, à jato,
e amáveis corvos a lhe esperar,
afugentarão matreiros avarentos,
paisanos velhos e incruentos!

Arthur Rimbaud

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

14 fuzis de elefante


COMÉDIA DA SEDE (Rimbaud, tradução minha)


COMEDIE DE LA SOIF

2. L’esprit

Juifs errants de Norwège
Dites-moi la neige.
Anciens exilés chers
Dites-moi la mer.

MOI – Non, plus ces boissons pures,

Ces fleurs d’eau pour verres ;
Légendes ni figures
Ne me désaltèrent ;

Chansonnier, ta filleule
C’est ma soif si folle,
Hydre intime sans gueules
Qui mine et désole.


2- O ESPÍRITO
(tradução minha de trecho)

Judeu Errante na Noruega,
dita-me o cair da neve
nos nossos  velhos exilados ternos,
conta-me o oceano.

 EU ––. Non, plus ces boissons pures,
nem essas flores de floricultura
nem essas legendas e figuras, 
nada disso jamais me ''desalterou''. 

Chansonnier, tua afilhada
é minha Sed Non Satiata, 
 hidra íntima sem bocas  
que mina e desola.

*

Com uma  citação para terminar:

''Ó demônio sem dó! a tua chama acalma!''
(Charles Baudelaire)


3- OS AMIGOS


Les Amis (tradução minha da última estro´fe)

Qu’est l’ivresse, Amis ?

J’aime autant, mieux, même,
Pourrir dans l’étang,
Sous l’affreuse crème,
Près des bois flottants.

*

Que é a embriaguez, amigos?

É mais vantajoso pra mim
apodrecer rente ao lago,
e sob o horrendo caldo
ver lascas boiando ali.


4. Le pauvre songe

Peut-être un Soir m’attend
Où je boirai tranquille
En quelque vieille Ville,
Et mourrai plus content :
Puisque je suis patient !

Si mon mal se résigne
Si j’ai jamais quelque or,
Choisirai-je le Nord
Ou le Pays des Vignes ?…
– Ah songer est indigne

Puisque c’est pure perte !
Et si je redeviens
Le voyageur ancien,
Jamais l’auberge verte
Ne peut bien m’être ouverte.

4- O POBRE SONHO
tradução minha

A chegada da Noite atenderá
meu desejo de tranquilidade
e em qualquer velha cidade
morrerei cheio de felicidade:
sabendo o que dela esperar.

Se minha desgraça diminui
com qualquer micharia,
para o Norte marcharia
ou para onde tudo flui?
Ah! Sonhar é tão ruim

Quanto um louco empenho!
E se esbarro de novo
com aquele velho coiote,
Ah!, passo no bar do povo,
chuto a porta até de noite.


5 – Conclusion

Les pigeons qui tremblent dans la prairie,
Le gibier, qui court et qui voit la nuit,
Les bêtes des eaux, la bête asservie,
Les derniers papillons !… ont soif aussi.

Mais fondre où fond ce nuage sans guide,
– Oh ! favorisé de ce qui est frais !
Expirer en ces violettes humides
Dont les aurores chargent ces forêts ?

Mai 1872

Arthur Rimbaud, Derniers vers

5- CONCLUSÃO
tradução minha

Palomitas soltas nas explanadas,
presas que a noite vela, correndo,
e monstros aquáticos, correria
sedenta ante mariposas pousadas.

Mais fundo, fundir-me sem metas
com a nuvem, de frescor favorecido!
Expirar no colo de úmidas violetas
que mudam as florestas -- de todo alvorecido!

Um fantasma é também uma suspeita


parou de olhar para o ser em termos da compreensão do homem do sentido do ser e entregou-se às tentativas de pensar o homem a partir da relação do ser ao homem, mais precisamente, da possível interpelação do homem pela "verdade do ser", sendo a verdade concebida a partir de palavra grega "a-letheia", des-ocultamento. 
*
Na nossa época, o homem não precisa mais de algo que venha ao seu encontro, ele produz o que precisa. Nesse sentido, ele vive na ausência de precisão. Nessa não precisão esconde-se, contudo, o abandono das coisas pelo ser, o obscurecimento do mundo, a perda do si-mesmo.
*
estabeleceu-se, em Platão, a metafísica como disciplina que pensa o ente desocultado como o visível por e0oxcelência, como "idea", o luminoso em si. Na história da metafísica, reconstituída por Heidegger nas suas preleções e retomada em Contribuições, o ser foi progressivamente se retirando do visível na "idea", o que fez com que o ente perdesse o caráter de ponto iluminado do espaço-tempo do desocultamento e se tornasse mera representação objetificante, a qual, por sua vez, termina por se tornar um objeto calculável, um cálculo – na linguagem dos dias de hoje, a realidade virtual.
O retorno ao primeiro início quebraria o esquecimento do ser, propiciaria o recuo que permitiria, decerto, apenas para alguns raros, ficar de prontidão para o outro início, no qual o ocultado não será mais esquecido e a lareira do desocultamento como tal preservada numa clareira. Desta, o homem, desfeito da sua animalidade e racionalidade, será cuidador, guardião e vigilante desse acontecer. A exposição do homem à verdade do ser precisa ser pensada como uma requisição proveniente do próprio ser: um "acontecimento apropriador". Esse termo – que não está no "título público", isto é, exotérico, do texto de Heidegger, Contribuições à filosofia, mas no "cabeçalho essencial" posto entre parênteses (Do acontecimento apropriador), na sua denominação esotérica – não promete que será dito algo sobre algo, mas assinala que "a partir do acontecimento apropriador acontece a apropriação de uma pertença pensante e falante ao ser e à palavra 'do' ser".
*
abandona a linguagem objetificante da metafísica e da ciência. O "salto" – esse termo é precisamente o título do capítulo 4 – passa por cima do abismo que separa o desocultado do oculto, mas nunca chega à outra margem dessa tremenda "fenda". Precisa ser sustentado no seu voo pelo dizer poético e pelas obras de arte, que "fundam", põem em obra, a verdade do ser e que são previamente fundadas no aí do ser.
*
O pensamento do ser apropriado pelo ser pode esperar o surgimento de um homem novo, o mortal que pertença à clareira de maneira criativa, poética (capítulo 6, "Os que estão por vir", isto é, Os Futuros). Em virtude da sua relação com a palavra não objetificante, o homem novo poderá esperar ser visitado, no futuro, por um deus, o último entre todos os que passaram pela clareira, o mais longínquo de todos os anteriores, porque fora de todo cálculo e de todo relacionamento com o homem decaído na condição de animal racional (capítulo 7, "O último deus").
*
A saga heideggeriana da verdade do ser e do salvamento dos perigos da técnica pela apropriação do homem pelo ser impõe exigências que muitos, acredito eu, não estariam prontos a atender: deixar de lado a linguagem teórica, a lógica e a matemática, o conhecimento científico da natureza, o estudo científico da natureza humana com suas dimensões de animalidade, de integração e de socialidade (a cargo da biologia, antropologia, psicologia, incluindo a psicanálise, e sociologia, respectivamente), a filosofia (a semântica, a epistemologia, a filosofia da linguagem), aspectos abstratos da cultura (a moral da lei, os direitos, a experiência cultural), a não ser aquela relacionada aos monumentos ao desocultamento, nomeadamente a poesia de Hölderlin. Pede-se, para falar a linguagem do primeiro Heidegger, virar as costas ao ser-no-mundo do ser humano em meio aos entes com os outros. Muito mais radical que o cinismo de Diógenes de Sínope, a contracultura heideggeriana só encontra paralelos na cultura mundial em posições declaradamente místicas, com a dos gnósticos e dos taoistas (Tchuang Tzu).